In memoriam  
Xosé-Luís Novo Cazón 
"Na procura da historia e da beleza" 
 (Xosé-Luís Novo Cazón: Tempus das Letras. 2009) 

Sempre o noso guía, seguiremos o itinerario que nos ensinaches

terça-feira, 26 de junho de 2012

Falarei para non deixar de soñar

Hoxe é unha entrada un tanto longa: desculpade, mais creo que vale a pena tanto ver o vídeo canto a lectura do relato.
Nestes últimos días, dentre esas creacións que se encontran nos libros, na rúa, na net... e que unha gostaba de comentar e partillar no momento porque son pequenas doses vitamínicas que nos  salvan cada día, escollín estas dúas para deixar aquí, a modo de despedida e para vos desexar un descanso cheo de vitalidade:

- Unha é o Lipdub Eu falarei, obra da comunidade educativa do IES de Chapela (Redondela) como resultado dun longo proceso que comezou co inicio do curso escolar.
"Eu falarei, con música do "I will survive" de Gloria Gaynor, e cunha letra escrita polo EDLG de Chapela, é un canto de amor en defensa da Lingua Galega, mais tamén é unha denuncia da situación que vive un idioma que esmorece lentamente vendo recortada a súa presenza nos medios de comunicación ou na propia escola, e que día a día perde falantes entre a xente nova".

- A outra é un texto  que Séchu Sende ofereceu ás amizades o día do seu aniversario nunha rede social: A muller que nom podia sonhar




 A mulher que nom podia sonhar

Conhecim-na numha festa na Casa do Brasil, no Bairro Alto, em Lisboa, haverá dez ou once anos.


Eu nunca viajara tam longe da casa e a viagem acabou ao final dumha escadaria de madeira num primeiro andar a rebentar de música. Como numha caixa totalmente cheia onde nom houvesse sítio para
o som mais pequeno. Os sons de percusiom aginha ocuparom tamém o meu corpo. Por isso pronunciar qualquer palavra era custoso, porque apenas havia lugar para elas.

A gente dançava como a cámara lenta, como se a música fosse um gas mesto e invisível, e amortecesse os movimentos dos corpos, como dentro da água. Eu abrim muito os olhos porque entre a gente que ocupava aquela sala pouco iluminada dei com persoas inesperadas: toda a gente era diferente. Quero dizer: mui, mui diferente.

Arregalei os olhos porque era como se naqueles cincuenta metros quadrados houvesse persoas dos cinco continentes. Lembro ficar a olhar um aborigem australiano a dançar com umha nórdica albina, lembro umha zigana com um t-shirt com a bandeira da roda de madeira, lembro gente asiática, umha mulher maior com roupa andina, um home com turbante branco, um grupo de brasileiros, claro, e muita muita muita mais gente. E ali, com a boca aberta, eu.

No centro daquel asombro de beleza, a beleza da diversidade, no centro da minha olhada, de súbito, estava ela, a dançar no centro do labirinto daquela festa. Era linda, era preciosa, com a sua roupa de cores brilhantes sobre a pel mais escura que eu nunca vira.

Ela fixo-me assi com o dedo, Vem, e eu fum atravessando a espiral em linha recta.

Levavamos três dias a durmir juntos e ao acordar umha manhá perguntei-lhe:

- Sonhache?

- Eu nom sonho, dixo.

Beijando-lhe umha orelha, desde atrás, perguntei com curiosidade:

- Porquê?

- Há três anos que nom sonho.

E sentim a frequéncia da tristeza a vibrar nas suas palavras. Ela deu-se a volta e olhou-me no fondo:

- Deixei de sonhar.

- Porquê?

- Nunca falei disto com ninguém... Fum deixando de sonhar pouco a pouco. Dizem que é algo que lhe sucede á gente do meu povo: quando deixamos de falar a nossa língua, deixamos de sonhar.

- Como?, perguntei como se nom comprendesse o que acabava de ouvir.

- Desde que cheguei a Lisboa, há cinco anos, fum deixando de falar a minha língua. Ao princípio telefonava á casa de vez em quando e falava com minha mai, falavamos com as nossas palavras, o nosso idioma. Mas há três anos minha mai morreu e a minha língua e mais eu ficamos soas aqui, longe. E, quase sem dar-me de conta, a medida que ia deixando de falar a língua do meu povo, pouco a pouco, fum deixando de sonhar. E um dia, umha manhá como a de hoje, ao abrir os olhos fum consciente de que havia muito tempo que nom sonhava. Desde aquela já nom podo sonhar.

- Nom podes sonhar..., susurrei assombrado. E ela baixou a olhada, desprotegida.

- Sempre pensei que as histórias que contavam as mulheres ás crianças ao pé do lume eram só histórias, fantasia.

-...

-... Quando minha mai me abraçou antes de subir ao autocarro que me levou ao aeroporto dixo-me: “Tem cuidado, nom deixes de sonhar”.

- ...

- Já ves, nom tivem muito cuidado. E agora nom podo sonhar, dixo. E foi fechando os olhos e afastou-se de mim para o outro lado da cama. A mulher que nom podia sonhar.

Umha semana despois eu voltei ao meu país. E desde aquela pergunto-me muitas vezes se a mulher que nom podia sonhar chegou a recuperar os seus sonhos algum dia.

Se a mulher que nom podia sonhar deixou de ser a mulher que nom podia sonhar.

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